Quando minha filha tinha 3 ou 4 meses eu colocava ela pra dormir vendo “brilha brilha estrelinha”, no meu celular. Até diminuía o brilho da tela do aparelho. Mas fiz isso por mais tempo do que devia.
Na segunda consulta de rotina com a oftalmologista ela alertou sobre o celular: alto risco de estrabismo e de miopia severa. Foi o suficiente para que o celular saísse da rotina da Cora, hoje com 5. Isso não significa que ela não tenha mais acesso a telas. Ela assiste desenhos no YouTube, ela vê os filmes da Disney e ela sabe mais sobre os sentimentos do que eu, por causa de Divertidamente 1 e 2.
É moderado, é controlado, mas ainda é muito mais do que deveria, tão novinha. Cora tem amigos da mesma idade que já jogam online. Nos próprios aparelhos. Há algum tempo.
Agora, quero que vocês viagem no tempo comigo.
O ano é 2040 e a Cora tem 20 anos. Ela pode ser considerada uma analfabeta motora, já que não desenvolveu na idade correta todo potencial do corpinho infantil. Ela é míope. Ela tem problemas na coluna. O córtex pré-frontal dela é menos desenvolvido e, por consequência, as emoções também. Ela tem disfunção de imagem, faz terapia por causa do cyberbullying que nunca discutimos em casa, não suporta frustração e tem a auto-estima no pé. Era minha doçura preferida. Hoje é agressiva e solitária.
Aquele tempo todo, com a liberdade que dei e com as vontades que fiz, posso ter direcionado minha filha ao caminho que hoje já temos estatísticas: as crianças pequenas estão expostas à pornografia e à pedofilia em maior escala que nós adultos tivemos à vida toda; elas fazem parte primeira geração com Qi menor que a geração anterior; elas não sabem socializar fora das redes sociais, elas perderam conexões significativas, elas estão doentes, sedentárias, com distúrbios de atenção.
Volta pra 2024 e eu não vou deixar nada disso acontecer com a minha filha. O projeto Conectados & Protegidos é para que vocês também não deixem. Pensem nas crianças, mudas telepáticas. Pensem nas meninas, cegas inexatas. Vinicius escreveu sobre outro tipo de bombardeio. Mas acertou em cheio no que vivemos hoje – especialmente maléfico para as meninas como a Cora.
O autor americano Jonathan Heidt, autor do best seller “Geração Ansiosa“, clama para que as crianças não tenham acesso às redes sociais — elas foram criadas para estimular a dopamina do cérebro adulto e estão viciando o cérebro dos nossos filhos pequenos. Ele também sugere o acesso ao celular só a partir dos 14. Bom, a gente sabe o que a pandemia fez com a gente.
Crianças e adolescentes foram obrigados a usar o celular e as telas para seguir estudando, para seguir se socializando, famílias inteiras para seguir trabalhando.
É difícil voltar no tempo e fazer o que Heidt sugere, é verdade. A pandemia pode não ser responsabilidade nossa, mas suas consequências são, inevitavelmente. Ignorar que o limite começa dentro de cada casa, dentro de cada sala, é aí sim ser responsável por uma nova pandemia. Que vai tirar nossos bens mais preciosos.
Portanto, deixem as crianças brincar. Brinquem com elas. Estimulem o brincar livre, o tombo, a frustração. Digam não. Levem papel e giz ou um bom livro para o restaurante. Conversem. Deem o exemplo e não almocem com o celular numa mão e o garfo na outra. Encontre o caminho da conversa e do limite que só você, pai, mãe, avó, babá, professora, dinda, tia, pode dar.
A aldeia toda precisa começar. E precisa começar hoje.